março 31, 2011

O primeiro caldo (a gente nunca esquece)



Cheguei na praia. Uma das melhores do Litoral de SP, senão a melhor. Clima de zoeira na casinha. Eu e 1 amigo - feio pra caramba por sinal. Mas tudo bem, ele não me interessa por essa qualidade mesmo. Gente fina como poucos.

Vimos filme, pegamos sol, conversamos com uma galera gente fina demais. Clima de família, todo mundo numa boa, sem encheções. Sol escondido no sábado.
Jantamos no Cheiro-Verde de Boissucanga. Risada atrás de risada. Paramos na casa do Gordo. Jogamos um pouco de baralho.Adivinha? Mais risadas.
Esses caras são mto engraçados...qualquer hora faço um post só das pérolas do Fê e do Gordo. As do Mílsson 'caboclinho' tbm...(Sim, o cara chama MÍLSSON !- rs*).

Combinaram de surfar logo cedo. Eu tava no meio disso.

Logo pela manhã do domingo, chega o Gordo batendo na porta da casinha e falando alto: -''tem onda, tem onda. E tá melhor que ontem...'' para acordar á mim, ao Fê ''Nariga'' e ao Roy.
Todo mundo com a cara amassada - 07:05 da manhã mais precisamente.

Começamos a nos arrumar para a tal da queda. '10 anos sem segurar numa prancha, mas beleza...'.
O Gordo havia me emprestado uma prancha na noite anterior. Sem leash, peguei um de long emprestado dele mesmo (ele só surfa de long e está começando no tal do Stand Up). A cordinha do leash, no copinho da prancha era um cadarço de tênis mto bem amarrado. Roots total.

Escova o dente pra cá, passa parafina pra lá, toma água acolá. 'Tomo mundo pronto?  -Vambora então' -soltou o Nariga já rindo.

E vamos nós.

O cheiro de mato, o barulho do mar de longe, o sol aparecendo (!) ainda fraquinho, começando á encostar na pele devagarinho...
- é, tem coisas que realmente não tem preço.

Comecei á ficar adrenado no meio do caminho. Uma adrenalina boa, boa de verdade. Aquela que dá vontade de chegar logo. Pensei em cair numa praia próxima que a onda é mais 'gorda', melhor pra quem está aprendendo. Os caras colocaram a maior pilha, falando que aquele mar que estávamos á caminho estava bom, estava fácil de cair. Que era melhor ali mesmo. Fui.

Chegamos: Praia vazia, 2 cabeças na água e na minha frente, as ondas quebrando (e de fora como parecem menores, né?!).
O Gordo e o Roy já se agilizando pra cair. O Fê me explicou algumas coisas bem rápidas e já me falou - 'entra atrás dos caras que tá mais fácil de passar por lá'.
Eu, como aprendiz, só fui, de boca calada. O coração parecia que ia sair pela boca e do outro lado o sorriso já estava á postos no rosto.

Coloquei a cordinha e fui. Comecei á remar rumo ao fundo. Primeira onda veio e tchuff!!! joelhinho. 'Até que eu lembro disso' me gabei.
Continuei remando. Cheguei na famosa 'zona do agrião'! (isso mesmo meu brother, AGRIÃO!)

(RISOS)

Segundo um amigo local do Fê: onde tudo acontece- os caras quebram as ondas, as ondas quebram (e quebram os caras), onde já não dá pé faz tempo, tudo isso.

Calmaria na água.
(Engraçado como o meu interno acompanhava o mar);

'A hora é agora!'- remei com toda a disposição matinal que me tomava.
... e me responde:
 quem aparece lá no fundo vindo 3x mais rápido?! quem?! quem?!

-A SÉRIE !!!

Os braços já estavam duros e queimando, pesavam uns 200 kgs cada um, mas mermão, tomar aquilo na cabeça ia ser pior que arrancar meus braços fora.
Cheguei bem perto, quando a onda já estava armada para quebrar, consegui o joelhinho milagroso.

-'Ufa! Agora um pouco de sossego pros braços'.

Cheguei. Cumprimentei os caras. O crowd começou á chegar uns 10, 15 mins depois.
Chegou um cara do meu lado, semblante sossegado e comentei com ele: 'ow meu brother, se eu fizer alguma coisa errada não pega mal não tá?! é que eu tô começando, blz?!'
O cara me respondeu que tava tranquilo, e que eu devia começar com um long ao invés de uma pranchinha.
Balancei a cabeça concordando (e discordando em pensamento) e olhei pro fundo.

Problema maior: mar com correnteza, puxando pro fundo. Uma bosta.
Ter que ficar remando, com os braços cansados igual os meus estavam iria ser bem difícil. Mas fiquei.

O Fê veio pra perto comentar: 'rema mais pra cá, se posiciona mais pra lá, presta atenção nisso'
Bom ter alguém que conhece por perto.

-'Rema mais pra zona do agrião' - ele sentenciou. Aquilo fez até eco na minha cabeça.

Remei.  Quando eu estava chegando na Zona, ele me grita:
-'Rema pro fundo que a série tá entrando!'

 Só que você que me lê não está entendendo. Não mesmo. Não era uma série qualquer -'Não!'
Era uma PUTA série. Daquelas que os caras que pegam onda mesmo falam: Uhuuuu!
Visualizou? Pois bem. Aí começou o momento inesquecível.

-'Fodeu, fodeu, fodeu!' -era o mantra do momento. Do meu momento. O Fê remando do meu lado pro fundo, a primeira onda armou e ele me disse: solta a prancha e mergulha por baixo!

Fiz exatamente isso. Soltei e nadei pro fundo.

Maluuuuuuuuuuuuucooo!!!! Que cadarcinho filho da puta !!!

Senti aquela hidromassagem nas costas e quando eu estava achando que já tinha passado por baixo dela, senti uma pressão nos pés, uma força me puxando.
- 'Já era !'

Tinha entrado na máquina de lavar que ouvia os caras falarem tanto.

No meio desse puxão inicial, lembrei de ficar calmo, igual as vezes que tem um cara com mais de 120 kgs em cima de mim em um treino de jiujitsu e não adianta fazer nada, só esperar a brecha pra poder agir.
Me senti faixa branca de novo e isso é a parte boa. Muito boa.

Olha parceiro(a) que me lê...
que eu consegui contar, foram 3 mortais-duplos-twist-carpados-muthafuckin-airwaves-surfonics embaixo d'água, que deixariam a Daiane dos Santos se sentindo uma criança. Certeza.
Tudo escuro. Até aí estava na boa, mas...o ar estava acabando e eu estava sentindo já.

Subi. Tomei mais 2 na cabeça. Wow, que delícia!
Quando abaixei pra puxar a prancha pela cordinha, adivinha?! cadê a prancha?!

Aí fodeu! F-O-D-E-U!

Desespero bateu na tampa neguin'. Vi o Fê mais perto.
Segundo ele, eu parecia uma foca girando pedindo peixe. Ainda bem que agora dá para rir.
Gritei pra ele me ajudar que eu ia me afogar, tinha perdido a prancha. Imagina, com os braços duros, sem ar e na adrena...vixi...

-que cadarcinho filho da puta?! eu já falei isso?! FDP!

Ele só me falava com aquela voz anasalada dele: 'Fica calmo velho!' Calma!' Eu não sabia se ria ou chorava, pela cara de suvaco dele. No final, o cara salvou a minha vida (Valeu Fê!!).

Quando olhei pro raso, quem é que estava femando na minha direção com a minha prancha?!
O cara que eu tinha falado meia hora atrás pra não me levar a mal...

Essa é a primeira de várias histórias do mar.

O resto se resume em : os caras me enchendo o saco e zoando, eu quieto e rindo, indo ter um meio de tarde na praia ao lado, aí sim caindo (pra não guardar o trauma e tirar a zica logo), ficando na boa, com o leash que eu roubei aquela tarde do Fê.
Me diverti demais. Fui do inferno ao céu em 6 hs e acabei com um sorrisão na cara no final do dia.

No dia seguinte, tinha uma operação marcada e valeu para tirar o stress e maus pensamentos. Mas essa já é uma outra história...

Bom, é isso.


Já sabem né?
Abraço p'ros caras e beijo p'ras meninas.




T.U.R.Ô.

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